Foi e está sendo debatida exaustivamente na mídia a reunião do G-20 ocorrida em Cannes na semana passada. A forte crise européia de diversos caracteres: econômico, político, moral, fiscal, também é uma crise de confiança (o que pode ser até “comprovado” com um significativo aumento da volatilidade dos papéis cotados em bolsas européias), foi o principal motivo de atenção dos países.
Antes de qualificarmos a atuação brasileira, vale lembrar que antes de iniciadas as reuniões, o continente europeu nos deu mais um exemplo da falta de liderança ou coordenação política. O G-20 seria aberto com os países europeus mostrando aos demais membros a autenticidade do acordo de negociação da dívida grega, juntamente com outras medidas que seriam adotadas pelo país, sinalizando ao mundo que a política européia está se movendo de forma mais unitária para sair da crise.
Καλά (pois bem – grego), “escorraçado” pela oposição, próprio partido, mercados europeus, população, o ex Premie grego Gergios Papandreou antes de entregar o cargo tentou colocar em votação na Grécia, sob forma de referendo, a validade ou não do acordo negociado com os países europeus, já que em contrapartida de um breve “perdão” de 50% da dívida grega, o país passaria por mais um processo das impopulares medidas de austeridade.
Essa epopéia Greco - Européia merece algumas considerações:
1 ) Papandreou não pode ser apontado como principal culpado pela situação de seu país, assim como Obama nos EUA. O problema que ambos estão enfrentando não foi iniciado por eles. Evidentemente que a condução confusa e ineficiente para sanar os problemas gera revolta.
2 ) Embora realmente seja lamentável como disse o colunista Clóvis Rossi da Folha de São Paulo, “os mercados surraram a democracia”, pois instantaneamente após o anuncio do Premie grego as bolsas européias despencaram, o que fez com que os supostos lideres Sarkozy e Merkel pressionassem ainda mais a Grécia, agora sobre ameaças mais duras, para cumprir o acordo, a medida de Pandreou foi muito infeliz. Se a população merece ser consultada, que tivesse sido em um momento anterior. Depois que você assina um documento sem confiança, fica imoral tentar questioná-lo usando o povo de escudo.
Agora vamos à atuação brasileira:
Basicamente, posicionou-se conforme os países emergentes rebatendo algumas propostas européias de auxílio a crise como injeção direta de capitais em fundos europeus. O que me parece coerente, tendo em vista que em momentos anteriores nenhum país europeu realizou tal operação. O auxílio acabava vindo via FMI, não vejo motivos legítimos para ser diferente.
Evidentemente que a Europa necessita de ajuda, inclusive o sistema global de capitais (ou economia de mercado) necessita do velho continente vivo, porém não é sensato ajudar um doente a se curar buscando pegar sua doença. Existem formas mais pragmáticas, que em diversos momentos como os de crise é importante que sejam tomadas para melhorar a situação.
Não estou habilitado para enviar sugestões geniais que salvem as economias em crise, mas talvez em um estágio inicial possa falar algo. Esse é o ponto que causou-me lamentação da participação brasileira.
Apesar de governos contagiados em todo mundo pela idéia de perfeição do mercado permitirem o avanço do setor financeiro sobre o setor produtivo, fazendo com que o primeiro tomasse conta do segundo, não podemos ignorar a história de formação política e econômica de cada país antes de tentarmos elaborar um manual de medidas para combater uma crise financeira. Se é que é possível tal tarefa.
Claro que não vejo com más intenções quando a Presidente Dilma fala que a Europa deva seguir as medidas que o Brasil tomou para rebater a crise, como algumas reduções nos juros básicos (ainda o mais alto do mundo), melhoramento “homeopático” na distribuição de renda (mesmo com as ironias, considero medidas boas e coerentes), mas o continente europeu apresenta problemas, estrutura e diversas outras coisas distintas quanto ao nosso país.
Não sou conhecedor ou talvez nem médio conhecedor de todos os problemas europeus, mas talvez possamos refletir um deles que é famoso: O aumento na expectativa de vida em países com um padrão de vida considerável fez com que um maior número de pessoas atinjam certa idade, parem de trabalhar e sejam remuneradas pelo Estado para sobreviver. Será que a Europa sairia da crise incentivando essas pessoas a consumir e oferecendo mais renda a elas? Será que antes disso não seria sensato pensar em quem irá sustentar essa classe social? Ou esquecemos que quando Maastricht foi assinado alguns governos aproveitaram a redução em suas taxas de juros e gastaram interna e externamente de forma aloprada?
São sempre interpretativas as intenções de um governo quando discursa, só espero que o Brasil não tente dar aulas de Economia à Europa. Isso não é uma visão pessimista (o Brasil não é lixo). Existem caminhos que o Brasil ainda precisar percorrer para querer ensinar Economia aos países de Webber, Marx, Smith, Ricardo e até mesmo Quesnay e Turgot.
Qualquer dúvida ou sugestões escrevam.
Um abraço, Guilherme Calil Olivetti.
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