quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Talvez um Paradoxo Brasileiro e a Cegueira da Autonomia

O ultimo boletim semanal Focus de análise de mercado divulgado semanalmente pelo Banco Central do Brasil apontou pela primeira vez nos últimos meses a adequação da taxa de inflação, medida pelo IPCA, abaixo do limite máximo da meta de 6,5%. Também foi projetada pela sexta semana consecutiva uma redução na taxa do PIB brasileiro, agora na marca de 3,16%.



Link para acesso: http://www4.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/R20111111.pdf

Essas duas marcas nos remetem a um tema bastante debatido na economia, ganhando maior força nesse período de crises financeiras que é o papel de um Banco Central.


O Brasil é um ótimo exemplo para essa discussão. Vamos retomar alguns acontecimentos:


O final do ano de 2007 marcou o início da primeira crise financeira com conseqüências mais dramáticas do século XXI, a qual grande parte do mundo ainda está lutando para sair. Na época, acompanhamos diversas reduções pelo Banco Central do Brasil na Taxa de Juros Básico, a Selic, até aproximadamente o final do ano de 2010.

Pelo próprio nome, a taxa básica de juros é referência (ou indexa, como falam no jornal e TV) diversas outras taxas do nosso país, sobretudo taxas de financiamentos. A idéia de reduzi-la acaba diminuindo, entre outros fatores, os custos de financiamentos, incentivando produtor e consumidor a investir, melhor dizendo, a circular moeda, mantendo o circuito econômico ativo.

 
Incentivar o consumo é uma boa maneira de reagir a desconfiança coletiva, talvez psicológica, que é criada em uma situação de crise. Porém, ao longo do tempo, vemos o risco do aumento de preços, já que consumidores incentivados a consumir podem tomar a ação de forma desenfreada (novamente um fenômeno psicológico) e acabam incentivando formadores de preços a aumentá-los. O que não é nenhum ato imoral por parte destes últimos. Consumos exagerados refletem mesmo aumento nos preços, qualquer pessoa que venda um bem tentará aumentar seu preço se perceber que existem pessoas destinadas a pagar mais.

Cuidado, não vamos confundir facilidade de crédito com preço final de um produto. O motivo de um televisor ou automóvel ficar mais acessível a um financiamento, abrigando compradores que antes não apresentavam condições, não indica diretamente que o bem se tornou mais barato no final.


As hipóteses acima se confirmaram no Brasil, o circuito econômico se reativou, o país apresentou boas taxas de crescimento quando comparadas ao resto do mundo, porém a inflação também subiu, fazendo com que o Banco Central tomasse o caminho contrário no final de 2010. Nos últimos meses, com sinais mais agudos da crise, a autoridade monetária voltou a reduzir a Selic, sendo que agora nosso cenário inflacionário é pior do que em 2007.


A verdadeira sinfonia que é o sistema econômico coloca nosso país em um concerto, onde a redução do juros básico poderá aumentar a inflação, fazendo com que esta não cumpra o limite máximo estipulado pela autoridade monetária. 


Voltando ao nosso debate, muitos economistas defendem a idéia de que o papel de um Banco Central é controlar o problema da inflação. Por isso, nosso Banco Central foi bastante criticado com as ultimas reduções da taxa de juros.


O outro lado da discussão acredita que um Banco Central não deva apenas se preocupar com a inflação, mas também considerar os eventuais problemas que um controle rígido na inflação pode provocar, limitando o crescimento de um país. Essa é a linha que  segue a atual gestão Alexandre Tombini.


Historicamente, inflação e PIB nem sempre seguiram uma relação direta. As ferramentas que o Brasil vem utilizando na economia desde o Plano Real, aliadas a resposta da nossa sociedade aos estímulos do governo no setor econômico nos levam a crer nessa relação tão direta entre os dois fatores.

Quanto a escolha de uma das linhas de pensamento apresentadas para o papel do Banco Central, ambas apresentam motivos aliados a fatos muito sérios para sua legitimidade. Entre manter preços em ordem e “menor” interesse ao PIB ou preocupação com o crescimento oferecendo controle mais brando à inflação, creio que a primeira engessa o órgão a contribuir em uma situação de crise ou em uma política de expansão. O banco ficaria tão autônomo, correndo o risco de “isolar-se” ou não enxergar o que estão tentando fazer.
Por sinal, muitas vezes conseguem fazer. No final de 2007, alguns Bancos Centrais eram tão autônimos que praticamente não viram a dimensão da barbeiragem realizada por empresas e governos.


Qualquer dúvida ou sugestões escrevam.


Um abraço, Guilherme Calil Olivetti



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