sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Itinerário de Pasárgada (Estelífero)


Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços e me pergunto qual a melhor maneira de se apresentar um poeta. A realidade plausível cai de repente em cima de mim.

-Sim, através dele mesmo.

Manuel Bandeira:
Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento, de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue, volúpia ardente
Tristeza esparsa, remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.



Escolhi este poema de início, por considerá-lo a síntese do próprio poeta em questão; “Eu faço versos como quem morre”. O verso do Bandeira é “volúpia ardente”, é “ tristeza esparsa”, mas antes de tudo, o seu verso “é sangue” e é isso que precisamos compreender para captar a alma deste grande escritor modernista.

Há algo sobre a vida do Bandeira que é fundamental saber para tal compreensão citada acima, não que ele seja autobiográfico o tempo todo, muitas vezes ele é, mas é justamente um fato de sua vida que vai desencadear a veia poética.

Quando o escritor tinha dezoito anos, foi desenganado pelos médicos, tinha tuberculose, e sabemos que até meados do século XX, a tuberculose não tinha cura. Apesar de ter sido desenganado muito novo, o poeta morreu com mais de oitenta anos. Não que o diagnóstico médico estivesse errado, acontece que Bandeira acabou tomando todos os cuidados necessários para ter uma vida longa a ponto dos amigos começarem a fazer gozação com essa história de morrer.

Agora acho importante ressaltar uma coisa, que nos vamos morrer, todos já sabemos, mas a gente não pensa nisso, quando alguém diz que vamos morrer, então, a gente passa a esperar o que o Bandeira vai chamar de “a indesejada da gente”, todos os dias. Sim, o poeta passou a esperar a morte todos os dias, isso justifica a história de fazer versos como quem morre e ter a morte como um dos principais temas da obra do escritor.

Quando se recebe uma sentença dessas, há algumas opções a considerar. Você pode, por exemplo, pensar que já que vai morrer mesmo, então, que seja fazendo tudo o que quer desmedidamente, passa a curtir a vida sem se preocupar com a saúde e a fazer tudo o que deseja com urgência. Você pode também, se trancar dentro de si e definhar aos poucos. Outra opção é fazer como o Bandeira. A postura do Manuel Bandeira é admirável, diante de uma noticia dessa, a opção que ele escolheu foi viver, ele optou por viver intensamente, mas somente onde podia.

Ele resolveu viver intensamente na poesia, não DA poesia, mas sim, NA poesia, dentro dela. E isso explica “meu verso é sangue”, o verso do Bandeira pulsa, tem a vida dele.

Cinza das Horas foi escrito justo nessa fase em que ele foi desenganado, publicação autônoma, recebeu muitos elogios principalmente da parte de Mario de Andrade e por conta disso, ele continuou a escrever.

Ele realmente queria viver, por isso é tão admirável, por isso escrevo sobre ele aqui hoje. Gostava muito de fazer coisas do dia-a-dia, mas a doença o impossibilitava, precisava de repouso, então, ele resolveu fazer tudo o que queria, onde podia, nem que fosse em PASÁRGADA:
Vou-me Embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
  
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Quem lê este poema e não conhece a história do poeta pode achar que ele é um preguiçoso, vida boa, que quer somente curtição, mas quem sabe um pouquinho da vida dele, como a gente aqui, entende que a verdade não é nada disso, que praticar esporte, andar de bicicleta e fazer sexo, por exemplo, são coisas comuns, para nós isto não é um problema, a gente começa a sentir falta justamente quando não pode fazê-las, Bandeira não fazia na vida real por conta da doença, mas fazia tudo o que queria, onde podia, ele era feliz do jeito dele.

Mas não pense que ele era SEMPRE feliz:

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei


Até mesmo em Pasárgada haverá um momento em que ele será triste, mas triste de não ter jeito e terá até vontade de se matar.

Então, quando eu escrevo viver NA poesia, isso significa viver com todas as dificuldades que a vida tem, como dizia Alberto Caeiro: “ a vida é feita de chuva e de sol”. A vida é feita de felicidade e de infelicidade. Na poesia do Bandeira, ele vivia intensamente e viver intensamente significa sofrer de vez em quando e ter vontade de desistir de tudo também. E todas estas experiências vão parar na poesia.

É curioso como o conceito de morte na obra do Bandeira não tem conotação negativa, ele usa a expressão : “ a paixão dos suicidas que se matam sem explicação” ao se referir a morte como uma espécie de momento máximo. A paixão é usada com o sentido duplo que ela tem a de sofrimento e a de intensidade. A crítica chama isso de “ instante máximo de intensidade vital”.

Veja bem, caro leitor, a grande arte literária não é aquela em que o livro tem uma boa trama e que passa uma lição de moral, não é por isso que Manuel Bandeira é um ícone da história da arte literária, afinal, qualquer um de nós que domina minimante a palavra pode dar bons conselhos, fazer isto é muito fácil. O mais importante é quando você consegue harmonizar os recursos que você utiliza, é isso que classifica uma grande obra. A escrita simples do Bandeira se harmoniza ao tema do cotidiano da sua poesia, por exemplo:

Poema Tirado de uma Notícia de Jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado

A vida é feita de pessoas como “João Gostoso” que se atiram na lagoa Rodrigo de Freitas, mas também é feita de coisas assim:


Porquinho-da-índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.


A vida é feita do suicídio, é feita das namoradas, é feita das propagandas de sabonete. Para Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho a VIDA era a matéria da poesia.

Manuel Bandeira é uma estrela?

Não, uma constelação. Espero que eu tenha despertado em você (leitor) uma vontade de saber mais sobre alguém que viverá para sempre, nem que seja em Pasárgada. Acredito que ele esteja lá. Está.


Livros indicados: Cinza das Horas; Itinerário de Pasárgada; Libertinagem.



4 comentários:

  1. Sensacional.
    Não consigo encontrar outra palavra que não seja sensacional para descrever o texto que acabei de ler!

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  2. Eu li... uhuuuu. não briga mais comigo e nem me joga praga em latim..

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  3. Genial! Isso me prova que não conheço nada de Bandeira! ta na hora ja!

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