sexta-feira, 14 de outubro de 2011

E agora, Líbia?

Continuando o assunto da semana passada sobre as ditaduras, pretendo expor a situação do país que mais recentemente teve seu ditador deposto. Dentre os regimes ditatoriais em crise e os já caídos, o da Líbia é o mais peculiar no que diz respeito a certas características estruturais do país e da revolta, fazendo com que as proposições sobre o futuro da “nação” sejam muitas e se dirijam para os mais diferentes caminhos.

Primeiro, é importante entender que a revolta contra a tirania de Gaddafi começou com uma revolta popular desarmada e, depois de uma repressão violenta das forças do ditador é que se tornou uma revolução armada. Esse sentimento revolucionário também teve influência das outras revoltas populares, como as da Tunísia e as do Egito.


A aliança rebelde contra o poder antes instalado no país é composta por diversos poderes locais, que possuem ideais diferentes e valores diferentes, mas possuíam um desejo em comum, que era o de derrubar o poder ditatorial instalado; e conseguiram. No entanto, a maior incerteza sobre o assunto é como, agora que com o governo provisório instalado, será a estruturação do poder público e do Estado nacional líbio tendente à democracia (o primeiro, pois o Estado do governo de Gaddafi não era nacional).

Um grande problema é que a Líbia não possui instituições políticas, partidos políticos, etc., o que dificulta a organização legítima de um Estado realmente democrático. A grande dúvida é se essa organização vai acontecer ou se os chefes locais passarão a controlar o poder com base nas estruturas locais.


Isso remete a uma outra característica do país e que foi decisiva na queda de Gaddafi, que é a presença das tribos. Elas são, mais ou menos, 140 e possuem diferenças entre si. O que acontece é que, apesar das diferenças, hoje, as tribos tem o sentimento nacional acima do sentimento tribal e isso foi decisivo para o desfecho dos acontecimentos. Foi por causa delas que Gaddafi não estruturou um exército nacional e sim um mercenário, o qual não poderia cair na pressão dessas tribos e se virar contra o ditador.

Agora, vamos falar do papel da OTAN e de seu possível papel no futuro líbio.

A OTAN, diferente do que muitos pensam, teve um papel fundamental na derrubada de Gaddafi, ajudando com os bombardeios aéreos e apoios organizacionais e materiais das forças de oposição, mas não teve o papel principal no acontecimento. Quem tirou o poder do ditador foram as forças revolucionárias da aliança rebelde, e não podemos tirar esse mérito (se é que se pode falar assim) deles. 

Muitas ideias se dirigem ao possível fato de que a OTAN poderá ocupar espaços do território líbio, afim de garantir interesses internacionais; e isso inclui o petróleo. As teorias conspiratórias dizem que tudo é uma armação para a tomada do petróleo pelas empresas ocidentais, o que não é impossível, pois recentemente muitas delas já declararam interesse nas regiões de extração do produto. Muitos ainda alegam que a situação de vida na Líbia era muito boa comparada a outros países que vivem situações parecidas, o que também não é completamente inválido; só temos que lembrar que a política do pão e circo ainda pode ser usada hoje em dia. Contudo, não é bem assim que as coisas acontecem. A ONU pode agir sim em prol das empresas internacionais, mas a estrutura e situação instaladas na Líbia não são as mesmas de diversos países que tiveram seus destinos traçados pela exploração do petróleo.

O ideal seria que a OTAN se retirasse do país, assim que uma certa estabilidade na segurança fosse estabelecida, pois o futuro da Líbia não poder estar ligado à organização, e que a ONU e a Comunidade Internacional tomassem medidas de apoio a democratização e a estruturação da força pública do país, que até então quase não existia.

O futuro líbio pode ser incerto, mas uma coisa que não pode deixar de acontecer, para que o país se organize democraticamente, é o desarmamento, até porque nas forças rebeldes existem influências e lideranças radicais islâmicas (o que, de certa forma, é normal).

Assim, devemos esperar reações das forças internas que agora comandam o país e da Comunidade Internacional, e até mesmo embates ideológicos, para sabermos o que acontecerá com o futuro da Líbia.


Comentem!

Abraços

Luiz G. S. Neto


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