domingo, 9 de outubro de 2011

A ideologia do progresso econômico


          O desenvolvimento econômico é possível e real em países que foram historicamente metrópoles manufatureiras ou em colônias de povoamento. Nos meados do século XII, com a retomada do comércio em alguns pontos da Europa, ocorreu certo monopólio do caminho terrestre de acesso às “Indias Orientais”, realizado por Gênova e Veneza; cidades pioneiras no resgate da cultura Greco-romana e no processo de retomada do comércio, portanto as outras regiões da Europa ansiaram por desvendar outras rotas para atingirem a desejada terra das especiarias. Ao findar do século XV e início do XVI, ocorreu um processo de centralização de tributos e do monopólio legitimo de dominação e do poder, incorporados na figura do monarca. A combinação da escassez de recursos naturais (~ 1000 anos de extração das minas de ouro e desmatamento dos bosques temperados) e a elevada renda provinda de tributos; ocorreu na península ibérica um salto tecnológico qualitativo no âmbito naval que permitiu o lançar europeu ao mundo.
          Os marinheiros saíram da escuridão geográfica que conheciam – intermediações do mar mediterrâneo – e foram se aventurar para além do estreito de Gibraltar. Conheceram o litoral africano, onde iniciaram a construção de feitorias, até atingirem o destino desejado: o Oriente Asiático. A idéia que criou-se foi de intensificar estas travessias atlântico-índicas objetivando – dentro da lógica mercantilista vigente na época – ter a Balança Comercial Favorável.


          Uma das esquadrilhas que ao acaso teve más condições climáticas ao seu caminho, desviou o sentido e chegou à terras antes desconhecidas pelos europeus. Vislumbrou-se que a riqueza natural desta terra poderia auxiliar, e muito, na B.C. dos países ibéricos. Na América lusa, adotou-se o regime escravocrata, baseado na cor da pele (latifúndio, monocultura – cana de açúcar- para a exportação) e na América espanhola, optou-se pela escravidão dos autóctones, num sistema alienante de MITA (falácias deturpadoras da própria cultura indígena, que culminaria em uma espécie de salvação, na America espanhola o ouro abundava) e ENCOMIENDA (tipo de escravidão temporária para a construção de obras publica).




          Países que apenas ficaram com a acumulação primitiva de riqueza, os ibéricos, se tornaram colônias intermediárias de nações que já estavam iniciando o processo industrialista, como França e Inglaterra. Houve uma enorme distorção nas relações comerciais, ao passo que as metrópoles vendiam gêneros agrícolas e compravam manufaturas como roupas e calçados. É claro que o fluxo numérico de gêneros agrícolas foi muito maior do que uma peça manufaturada. O acumulo exacerbado de ouro na Espanha gerou uma imensa crise inflacionária, sendo que o governo trocava toda esta contingência de ouro por manufaturas dos países do norte, que investiam este em tecnologia industrial. O que aconteceu foi um lento escoamento das riquezas da América para os países do centro e do norte da Europa.

          Este processo se repetiu na invasão à África e à Ásia, porém utilizando uma lógica neo-colonialista, em que não se dominava os corpos dos indivíduos, mas sua liberdade de escolha, ou seja, para poderem beneficiar-se do fruto de suas próprias terras, eram obrigadas a ter uma moeda de troca, imposta pelos invasores. O dinheiro. Era uma situação muito asquerosa, pois os produtos próprios do país eram enviados para a Europa, ganhava um ‘selinho’ do país colonizador e era vendido a altíssimos preços no país de origem e nos outros do mundo.


          Os países que foram historicamente colônias de povoamento tiveram a característica de enraizamento cultural, político e econômico dos colonos com sua nova terra. Era presente no consciente coletivo médio do colono que a situação em seu país de origem não seria favorável ao seu retorno, sendo que estes passavam por matanças generalizadas por mote político e muitas vezes religioso. Então, criava-se um sentimento duplo de rejeição à terra de origem e identificação com a terra de destino, o que favoreceu o nacionalismo e o patriotismo destes novos sujeitos nacionais. O caráter de orgulho e, muitas vezes soberba facilitou o eclodir técnico-econômico e com a produção de indústrias manufatureiras, nos meados do século XVIII, principalmente nos EUA. Na Austrália, vimos um processo de acentuada europeização e genocídio dos autóctones, sendo que atualmente, menos de 1% desta população se encontra viva. Houve rupturas e continuidades na relação metrópole-colônia, que, entretanto, não mudaram o caráter de auto-suficiência produtiva e acumulativa das colônias de povoamento. No caso norte-americano, presenciou-se uma negligência salutar esta definida por uma política de afastamento das relações coloniais de produção, seu resultado foi uma crescente acumulação primitiva, também nos EUA, fomentado pelo comércio triangular entre os, Estados-nação africanos e as Antilhas caribenhas. A Inglaterra não conhecia as riquezas naturais dos EUA e, portanto presumiu que não existiam. Para esta nação era mais ‘fácil’ manter a lógica de exploração da Améria Latina (via Portugal e Espanha) do que gastar em expedições à procura de riquezas em solo norte-americano.

         Os EUA produziam RUM do melaço produzido nas antilhas, Este rum era comercializado com os Estado-nações africano, em troca de escravos. Estes escravos eram vendidos nas Antilhas Caribenhas, em troca do melaço de cana. Fica evidente que um ‘produto industrializado’ era mais caro que um reles punhado de melaço ou um escravo, portanto houve também um fluxo encorpado de transferência e acumulação de riquezas na região das 13 colônias... As rupturas são manifestas na Independência dos Estados Unidos e as continuidades na manutenção do Canadá e da Austrália, pois embora tenha se realizado uma política de desenvolvimento econômico nacional, estes citados ainda são colônias do Reino Unido. A monarquia britânica ainda tem algum poder a exercer nestas regiões. Vemos também a chamada Common Wealth, que é uma comunidade de colônias e ex-colônias britânicas que possuem “preferências” no comercio com a (ex-)metrópole européia. Ou seja, se mantém uma tradição colonialista, institucionalizada e adaptada aos dias atuais...


          Então, meu objetivo aqui foi de mostrar como se formaram as ‘potências’ econômicas atuais, ressaltando que só foi possível seu salto tecnológico à custa de outras regiões do mundo. Por isso também é necessário frisar o quão falacioso é o discurso de que nações atualmente ditas ‘subdesenvolvidas’ podem alcançar (também) o nível do desenvolvimento. É evidente que se as riquezas expropriadas outrora retornassem, nesta mesma lógica capitalista, às regiões de origem, talvez se conseguisse outro rumo para estas atuais nações, no âmbito econômico, mas além de ser inviável jamais seria aceito o ônus da ação política levada às ultimas conseqüências num tempo longínquo que se relega o esquecimento.

          Analisando um pouco a nomenclatura que se dá aos países que são celeiros das matérias primas necessárias ao primeiro mundo capitalista, podemos destacar a produção de petróleo, gás natural, setor de tele-comunicações e produção de alta tecnologia com mão de obra barata, açúcar e minérios; os BRIC’s não passam da atualização das antigas colônias e países atrasados, em um mundo muito mais complexo e contingente. São produtores de commodities, matérias prima que influenciam o crescimento e desenvolvimento do primeiro mundo e que, entretanto, são muito pouco valorizados, pois não são provindos da indústria (deles). Ou seja, um país subdesenvolvido extrai de seu solo uma riqueza natural, que passa por uma indústria em solo estrangeiro e volta com o preço elevadíssimo. O que vemos é uma dupla expropriação: tanto no processo de venda da matéria prima quanto no processo de comércio do produto acabado. Que, inclusive se remete substancialmente às praticas liberais do passado.

          Não se tem o interesse de abrir fábricas nacionais, tanto pelo caráter desleal à concorrência quanto pelo desprotecionismo que o governo realiza, fomentando a abertura de trans-nacionais em solo Brasileiro, que embora aumentem a taxa de emprego, não contribuem para o desenvolvimento econômico, sociocultural do país. Os verdadeiros lucros vão para bancos e cofres nos paraísos fiscais de Genebra e Bahamas. Os investimentos que seriam frutos de uma indústria forte do Brasil e dos subdesenvolvidos é cortado radicalmente, dada a conjuntura especulativa do grande Capital financeiro.

          É obvio que se tentaria, numa atitude de conivência com a ideologia dominante, enaltecer a Coréia do Sul, Taiwan, como exemplos a serem seguidos, em direção a um futuro de progresso. Mas o que questiono é: COMO? Já foi provado que não existem condições necessárias para que todos os países do mundo possam ter o mesmo padrão de consumo exagerado que nos países do Primeiro mundo. Este ideal opulento e comparado não passa de uma ideologia dos países enriquecidos que se arrasta, tentando fortalecer o mérito individualizado, sem se ater às conseqüências disto. É clara a posição do FMI quanto aos países empobrecidos: redução drástica do Estado na economia (para que e porque eles não falam, mas na realidade o que se objeta é a alienação local em corroboração à incisiva invasão econômica, política - e no ápice do neo-maltusianismo sanitarista- externa). Minha utopia se desenrola de maneira que os expropriadores reduzam drasticamente seus padrões de consumo, atentando às vitimas de suas condutas passadas E que nós, produtos do militarismo autoritário e ideológico dos ‘vencedores’ possamos elevar nosso padrão de vida, atentando à Saúde, à Educação e ao processo produtivo.

          Acredito que para uma relativa emancipação, inclusive Foucaltiana, no sentido pós-moderno de que não se teria esta em uma liberdade plena, mas em pequenas doses durante o tempo, os países do atual Terceiro Mundo devem se ater na formulação de novos planos de investimento, se retirando ou pelo menos amortizando ao padrão ocidental meritocrático, neoliberal e eurocêntrico. Também, a questão da corrupção, realiza o seu sentido extremo axiológico: corrompe, decompõe, estraga, degenera o que se tem no caráter péssimo de, pior que levar a um progresso hipócrita e destrutivo, leva a uma Leviatãnização do político e das relações políticas, econômicas e culturais da nação pobre. Tenho convicção de que, ainda mais em tempos pós-modernos de elevada fragmentação, crise identitária e alienação midiática, se configura uma utopia: a tomada de consciência e despertar de identificação e reconhecimento com a terra de origem. Pode-se criticar a postura sonhadora, entretanto segundo Eduardo Galeano, La utopía está en el horizonte. Camino dos pasos, ella se aleja dos pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá. ¿Entonces para que sirve la utopía? Para eso, sirve para caminar.”

Que caminhemos compatriotas. Que caminhemos, irmãos e primos do subdesenvolvimento. Que caminhemos, vencidos. Sempre na direção oposta do que tentam nos impor.



Róbson Gil
Universidade Federal do Paraná
Coletivo Maio


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