
Olhar o que temos por dentro é sempre perigoso, a náusea de ser o que se é, mistura-se com a angústia de não conseguir mudar o lado que escondemos da sociedade e de nós. A Náusea consome e nos desafia a enfrentar o que há de mais grotesco em nosso interior, normalmente, não paramos para pensar sobre isso, pensar dói, mas quando somos capazes de nos enfrentar, eis a EPIFANIA.
Epifania é uma palavra chave para compreender a obra de Clarice Lispector, obra que nasce de um fluxo de consciência, que mede bem, de repente, a nossa fraqueza e a nossa inquietação prolixa da alma.
O livro A Paixão Segundo G.H é um romance difícil, árduo, todo retratado em uma única cena, onde a personagem principal resolve limpar um cômodo da casa e se depara com uma barata saindo do armário. Pronto, o enredo acaba aqui! Sim, todo um livro contado apenas nesta cena, mostrando a essencialidade do mistério e de todos os sentidos parados em divino êxtase revelador, criador de uma estreita ponta entre G.H e ela mesma.
É neste momento que você, leitor, se pergunta qual a razão de ler um livro como este, sem enredo. Antes de tudo, é importante saber que em Clarice, o enredo é deixado de lado, inexiste, o que existe é um fluxo de consciência.
O momento em que G.H é exposta a barata é justamente o momento da Náusea. A Náusea é freqüente na obra da Clarice, e quando me refiro à Náusea, é aquela de embrulhar mesmo o estômago, a Náusea de ter vontade de vomitar. Em todos os livros, seja em Laços de Família,seja em Perto do Coração Selvagem, seja onde for, esta NÁUSEA sempre vai aparecer, é então, que como na obra de Guimarães Rosa, a personagem sempre tem uma escolha: ela pode fingir que não esta acontecendo nada ou ela pode enfrentar a violência do momento.
Qual o problema da barata? Nada, ora. O problema não é a barata, a questão é que, a partir do momento em que a G.H vê aquele inseto na parede, ela começa a se lembrar de tudo o que era nojento nela mesma, de tudo o que já tinha feito, de tudo o que ela se envergonhava de ter sido e de ser.
Todos nos temos memórias nojentas, mas a gente prefere esquecer esta parte, a gente pega esta parte nojenta nossa e joga em baixo do tapete para cair na vala comum do esquecimento, mas G.H lembra de todos estes momentos, ela faz questão de lembrar, então, aquilo vai virando uma ânsia, uma náusea imensa, até o instante em que ela percebe que para exorcizar tudo, ela teria que EXPERIMENTAR A BARATA, colocá-la na boca. Metáfora maior não há. ELA SE ENFRENTA.
A gente que se acha adulto, mas que é prematuro, sim, eu e você, leitor, sabemos que não somos diferentes, nos sabemos que todos temos aquele lado que gera náusea até em nós mesmos, o lado que não é bonito, o qual escondemos atrás de máscaras e de comodismos. Funciona como que uma praga, sabe?
Para chegar onde queremos, não precisamos abrir mão da nossa natureza, precisamos apenas aceitar que todos temos um lado ruim, é só assim que a gente se conhece, não tem outro caminho.
São estes momentos de enfrentamento, que aparecem em toda obra Lispectoriana, onde encontramos a EPIFANIA. O termo epifania aparece muito na bíblia, principalmente no velho testamento. Epifania é uma revelação, a personagem toma conhecimento de tudo a sua volta e é então que ela tem duas opções: manter-se na epifania ou esquecer tudo e voltar ao que era antes.
No livro Laços de Família as mulheres escolhem esquecer tudo e voltam a ser o que eram antes. Todas as personagens de Laços de Família são mulheres, mulher submetida a um cotidiano doméstico, mulheres massacradas por não terem uma vida verdadeira, elas não têm, nem podem ter opinião própria, os maridos não lhes dão esta liberdade, elas não se dão, suas vidas sempre giram em torno de terceiros. Uma prisão dentro de si. Então, existe um momento em elas querem sair da prisão, querem liberdade, elas têm uns instantes de consciência, mas desistem.
Ana é uma das personagens, por exemplo, que todo dia faz seus trabalhos domésticos: mandava os filhos para o colégio, esperava o marido ir trabalhar e depois fazia suas atividades de casa. O problema é que por mais que ela tivesse o que fazer, chegava uma hora em que as tarefas acabavam, Ana chamava estes momentos de “hora perigosa” porque enquanto ela estava ocupada, não pensava, no momento em que ela ficava sem nada para fazer, ela se ocupava pensando, e quando pensava, se dava conta da mediocridade que era sua vida, era um horror, não gostava do que tinha se tornado. Ela não queria ser aquilo que era e viver daquele jeito, mas não via outra saída.
Uma tarde, quando os serviços acabaram, ela saiu de casa, saiu de casa porque a vida é assim, não adianta a gente sentar e esperar que as coisas melhorem, então, sai às ruas sem rumo e vê um cego pedindo esmola, totalmente alheio ao mundo, Ana não conseguiu tirar os olhos dele, ela ficou tão atordoada de ver aquele ser humano naquelas condições, numa esfera totalmente diferente da dela que resolveu então, tomar um bonde e ir embora, nem ela sabia onde estava indo, quando voltou a si, já estava próximo ao Jardim botânico, desceu ali perto e ficou lá o resto da tarde, viu as flores, viu a natureza, aquilo tudo era muito libertador, o ambiente todo o era, curtiu todos aqueles momentos e naquele instante de epifania, quando ela estava feliz, viu que podia ser livre se quisesse, que podia fazer o que ela queria, que podia dar um rumo diferente a sua vida, foi então, que olhou o relógio e lembrou-se que os filhos iam chegar da escola, o marido ia chegar do trabalho, e ela? Bom, ela nem tinha feito o jantar ainda.
Na hora em que a personagem se lembra disso, sai correndo, pega o bonde, volta para casa, faz o jantar rápido e age como se nada tivesse acontecido, volta à vida “normal”.
Os momentos de epifania são assim, eles sempre nos dão uma escolha, ou a gente se liberta ou volta a ser o que era, volta à vida “normal”. É então que percebemos que Clarice nos faz a mesma pergunta que Machado de Assis faz em O Alienista: “O que é ser normal?”.
Ser normal é comer baratas ou é deixar as coisas como estão?
Clarice, como ela mesma dizia, não escrevia para fora, escrevia para dentro, o universo dela é intimista.
Em certos momentos do dia, recordo tudo isto e apavoro-me, penso em que poucos bocados desta minha vida ficarão a minha normalidade real, tranqüila de sensações ruins e de desassossegos. É. Ela tinha razão...
...a vida é de fato um soco no estômago.

Genial! Eu não faria melhor! Ler clarice é socar a própria cara a cada palavra e sair deformado de cada livro. A epifania é sem duvida algo que deixa marcas profundas, mas queiramos nós ou o tempo vem e traz à evidência aquilo que Milan Kundera chama de "A insustentável Leveza do Ser", tirando a dor e deixando apenas as cicatrizes.
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